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Carta Jean – Outubro de 2018

By 28 de novembro de 2018Carta aos amigos

90 anos! Meu Deus, como eu posso acreditar nisso! Eu sinto um desejo tal de gritar minha gratidão! Primeiro de tudo à Deus, que é a fonte da minha vida. Eu sou um pobre filho de Deus desde o primeiro momento da minha vida, secreta e escondida no ventre de minha mãe. Foi o momento da minha inocência primária antes de todas as minhas reações de medo, agressão e especialmente culpa, que nascem quando essa inocência primária é ferida.

Eu agradeço especialmente à minha mãe e meu pai. Para evitar um aborto, e não arriscar perder-me, minha pobre mãe teve que passar pelo menos três meses na cama em um pequeno hotel em Paris, longe do meu pai que trabalhava na Suíça.

Ela sofreu muito com essa terrível solidão. Finalmente, houve meu nascimento e depois o nascimento da minha vida cristã através do batismo. Sim, aos meus pais, obrigado!

Obrigado também à minha comunidade Arca em Trosly; obrigado a Christine Mc Grievy, a responsável de comunidade. Nós comemoramos meu aniversário de 90 anos muito bem. Foi lindo, muito alegre, muito festivo e muito orante. A celebração começou com uma Eucaristia celebrada por um amigo de longa data da Arca, o bispo Gerard Daucourt. Após a missa, nós nos encontramos para um grande aperitivo com toda a comunidade e amigos provenientes de diferentes cantos da França, na maior parte e alguns de mais longe.

Uma grande celebração foi organizada à tarde, animada por Hoda Sharkey e Hazel Bradley, com músicas e encenações que contaram grandes momentos da minha história.

Frédéric Dethouy me representou maravilhosamente nas importantes etapas da minha vida: a entrada na Marinha e depois minha saída para seguir Jesus; o nascimento da pequena comunidade da Arca. Ele também representou o momento em que tirei minha gravata e coloquei uma jaqueta azul! Em seguida, várias etapas da evolução da Arca foram evocadas: o ecumenismo graças a Steve e Anne Newroth, que fundaram a Arca em Toronto, a fundação na India com Gabrielle Einsle e a descoberta do interreligioso.

Pouco a pouco, tomamos consciência do que nos disse um cardeal em Roma: “Vocês na Arca fizeram uma revolução coperniciana! Até agora foi dito que você deve fazer o bem para os pobres; na Arca vocês dizem que é o pobre
que faz o bem a vocês!”Talvez hoje eu diria que não são apenas as pessoas com deficiência, mas todos aqueles que foram humilhados, postos de lado, que nos fazem o bem, se entrarmos em relação com eles.

A Arca cresceu assim como esta bela comunidade do Fé e Luz que continua a crescer em todo o mundo. Fé e Luz nasceu
durante uma peregrinação a Lourdes em 1971, graças a Marie-Hélène Mathieu que ouviu o apelo angustiante e urgente dos pais de Loïc Profit. Eles queriam fazer uma peregrinação, pois não tinham sido aceitos nos hotéis de Lourdes por causa de Loïc e seu irmão Thaddée, ambos com severas deficiências. Com Marie-Hélène decidimos fazer alguma coisa. Então a idéia de uma peregrinação para pessoas com deficiências, seus pais e amigos, nasceu.

O motivo dessa expansão de nossas comunidades da Arca e do Fé e Luz é, antes de tudo, o grito de tantas pessoas com deficiências em todo o mundo. Este grito é um chamado: “Você me ama?” Este é o clamor por um encontro verdadeiro e humilde de muitas pessoas humilhadas e vulneráveis, sentindo-se sozinhas e abandonadas, que continua a ressoar em nosso mundo.

Nossas comunidades querem transformar a humanidade pela unidade, onde cada pessoa possa encontrar seu verdadeiro lugar, o mais fraco como o mais forte, e não tenha mais divisão ou separação.

Assim, uma humanidade nova e universal nascerá com a esperança de que muros, medos e orgulho cairão para dar lugar a uma canção de amor e fraternidade universal.

Sim, a festa de meus 90 anos foi verdadeiramente um momento de ação de graças. Obrigado à cada um de vocês
pessoalmente. Obrigado a cada uma de nossas comunidades Arca, de Fé e Luz, e tantas outras, por seus votos e orações que vão me acompanhar durante os anos que vêm. Eu sei que novas fragilidades, pobrezas e perdas estão me esperando. Será a descida ao que é essencial, o mais oculto em mim, mais profundo do que todas as partes do
sucesso e da sombra em mim. Isso será tudo o que resta quando todo o resto se foi. Minha pessoa nua, uma inocência primitiva esperando por seu encontro com Deus. Obrigado por suas orações que me acompanham nesta descida em direção a este tesouro, o mais profundo do meu ser.

Aqui estão algumas notícias das minhas férias em agosto e o que aconteceu desde a minha última carta.

No começo de agosto

O verão foi marcado pelo sol quente, o sol brilhante, o sol deslumbrante… o calor, 30 a 38° C em toda a França. Eu escapei para a nossa comunidade Arca em Ambleteuse perto de La Manche, onde as temperaturas estavam em torno de 23° C. Com Odile Ceyrac, fomos hospedados na pequena casa do Padre David Wilson e tão bem recebidos por Michèle Dormal.

Um tempo de paz, passeios pela orla do mar, praias, o Paraíso para crianças e famílias. À noite, o sol descia muito devagar e humildemente atrás do horizonte do mar, dando lugar à noite. Aí, a lua estava escondida do outro lado da terra. A lua tão doce, tão humilde, transmitindo a luz de outro, maior que ela. Somos todos tão pequenos diante
deste universo com todas essas estrelas, o sol e a lua cuja vida terrena depende. Você sabe que todo ano esse grande sol perde um pouco do calor e da luz? Um dia ele se apagará, depois de bilhões de anos. Um dia o cosmos
começou, um dia terminará. Tudo é tão grande e tão pequeno. Para nós, seres humanos, há também um começo e um fim.
Há o momento de fertilização no ventre das nossas mães e depois no dia da nossa morte. E na origem de tudo, existe Deus tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno e tão humilde diante de nossa liberdade.

Tudo é tão grande e tão pequeno

Padre David foi o padre da comunidade Arca em Ambleteuse por mais de 30 anos. Ele tem agora 80 anos e está em um estado particular de fragilidade, às vezes um pouco perdido. Hoje ele mora em um lar para idosos. Ele desceu nessa fragilidade entrando em um espírito de infância, uma infância em Deus, uma presença de Jesus gentil e humilde. Para
entrar no reino de Deus, o reino do amor, você tem que se tornar assim. Todos nascemos na fragilidade e o fim de nossas vidas é um retorno à fragilidade, de dependência, necessidade de ternura e proteção. Tornar-se mais fraco dá o significado mais profundo de nossa humanidade. O padre David viu essa fragilidade dolorosa, mas com seu grande
sorriso de paz e amor.

Mais tarde, por volta de 16 de agosto

Após o frescor da beira-mar, estou no mosteiro de Orval com seus monges em oração. A onda de calor se foi e as andorinhas da África continuam a cantar a vida. Sinto-me em casa neste mosteiro: um paraíso de paz e silêncio. Os irmãos monges, que conheço há mais de 30 anos, rezam pela Arca e pelo nosso mundo sempre buscando como administrar o medo que encerra pessoas, grupos, países sobre eles mesmos e impede a liberdade dos corações. Ontem à noite a lua
voltou após sua jornada ao redor da Terra, uma pequena luminária tão humilde e doce, que nos encoraja a confiar. Ela é tão linda que eu adoraria conversar com ela e ouvi-la.

De volta a Trosly no início de setembro

De Orval desci para o sudoeste da França na família de Odile Ceyrac. Eu pude visitar as cavernas de Lascaux. Uma visita extraordinária que me emocionou muito e abriu meu coração, inteligência e espírito. Cavernas descobertas em 1945 porque o cão de um jovem da região correu atrás de um coelho. O coelho fugiu para um buraco e o cachorro o alargou; o buraco tornou-se assim a entrada para uma caverna. Então esta caverna levou a outra e depois outra.

Estas pinturas foram feitas por homens e mulheres de uma humanidade tau e de uma extraordinária sabedoria

Extraordinários afrescos de cavalos, renas, bisões, leopardos e outros animais foram descobertos. Os cientistas estudaram esse fenômeno, acreditando que essas cavernas tinham cerca de 20.000 anos de idade. Sim, 20.000 anos! Fiquei atordoado diante dessas cavernas, dessas pinturas, diante de certos símbolos que não se consegue entender.

Houve um tempo em que a vida humana começou em nossa terra e uma época em que ela terminará. Entre esses dois momentos desenvolvem civilizações e sociedades, religiões, grupos humanos tão diferentes, cada um revelando um aspecto da beleza humana. Hoje, estamos em um momento em que há tantos medos e, ao mesmo tempo, esperança. A Arca, Fé e Luz e tantas outras comunidades e grupos navegam neste grande oceano da humanidade, desejando dar uma orientação de paz e unidade.

Depois dos dias de festa do meu aniversário, voltei para Trosly para dias tranquilos, com minhas manhãs dedicadas à oração, lendo a Bíblia e outros livros. Eu sou ajudado por Odile, pelos membros de La Ferme e por Widad Bisher, que me apóia. Todo dia eu ando por pelo menos 30 minutos para manter minhas pernas em forma. Conheço algumas pessoas no final da tarde. Às vezes, faço vídeos curtos de 4 minutos para transmitir o que aprendi na Arca ao longo de
todos esses anos. Eu vivo um momento de paz. Eu gostaria de viver cada instante no amor, sem qualquer outro projeto. Espero pelo que Deus e a fragilidade me darão neste caminho de descida.

Deixo vocês até a próxima carta, agradecendo mais uma vez por seus votos e orações e pedindo perdão aqueles que magoei durante todos esses anos.

Jean

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